"Eu sou mulher. E sou homem". Mais uma de Fernanda Young, que me fez ver, com a sua Cristiana, como errar é sempre mais fácil. Trechos selecionados de "O efeito urano", Rio de Janeiro, 2001.

 


Após esse dia, nunca mais a vi, até que nos reencontramos - sendo impressionante que "nunca mais" possa ser usado desse jeito, "nunca mais até que...". Mais impressionante do que isso só mesmo ver uma pessoa numa festa, achá-la patética, e tempos depois a estarmos amando, para tempos depois não estarmos mais. Essa incoerência do amor quando revisto. Penso muito nisso, mais do que necessário. Em como é "desconcertante rever um grande amor". Você olha pra ele e não sabe onde foi parar aquilo tudo que deveria estar eternamente ali. 

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Sim, claro, eu sou uma doente mental que acredita no que nos dizem quando querem nos comer.

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(...) a perfeita definição da mulher que finalizou o século 20: não sabe o que é, mas o que não é, sem saber o que lhe é problema ou sandice, nem o que fazer com a liberdade que tem, não sabendo e sabendo tudo isso ao mesmo tempo agora.

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Era o primeiro telefonema, aquele que não deveria ter sido dado. E que deu origem à série, de dados e não dados, levando, pelos inocentes fios de Graham Bell, essa história de amor e erro.

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Desculpa se eu tive medo. Eu tive medo. Tive e tenho medo. Medo, inveja, ódio, ciúmes. Não menti, não queria mais a minha vida, mas tinha que defendê-la. E mesmo desde cedo te amando, desde cedo te expulsando.

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Sofrimento amoroso, a dor mais inspiradora e mais perversa. Pois a profundidade do sentimento que acabou atinge camadas até então intocadas. Não deu certo, e você tinha toda certeza que havia achado a pessoa da sua vida. Mil desentendimentos foram suficientes para acabar com tudo. E dói. Porque, se é como um edredom de penas de ganso estar amando, sendo amado, o contrário é mesmo o miserável frio. Paixão, a idiotice necessária. Logo, primeiro se é um idiota, depois se ama e se entende estar para sempre acompanhado. Por baixo do edredom de penas de ganso, que é o estado amoroso. Então os canais da comunicação se engarrafam. Congestionam-se as veias. Seu coração fica dilatado igual a coração de grávida. A caixa torácica torna-se pesada, a postura fica meio curva. Você levanta e parece que continua com a cadeira colada à bunda. Por fim, você corre sem sair do lugar.

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Tem gente que sabe o que eu estou falando. Agora, agora-agora, agorinha, tem gente que sabe o que  eu estou, caralho, falando. É, é o meu momento, mas tem gente que também sente exatamente isso. Essa euforia de achar-se o único a sofrer no mundo. Aquele que mais se comisera, que mais sabe que está fodido, aquele que sofre de um jeito sofrido que ninguém mais sofre. E isso, que seria egoísmo, no sofrimento torna-se altruísmo. A generosidade de ser o absoluto desgraçado do planeta, liberando o resto da humanidade para ser mais feliz do que você. Eu sou essa absoluta desgraçada. E estou desgraçadamente acompanhada por milhões de outras pessoas que escreveram cartas jamais enviadas, que destruíram cartas jamais abertas, que juraram que ficariam para sempre com você onde quer que você fosse, para todo o sempre, e se você saísse por aí, ela iria junto, e se você fosse para Marrocos, ela iria também, e se você não andasse ela carregaria você nos braços. Sou uma desgraçada tao desgraçada que crê em tudo isso, agora e até o fim, sozinha com o mundo inteiro ao meu lado.

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Quanta merda, hein? Se pudesse escolher, dormiria até tudo passar, e tudo vai passar. Antes que... Ai, antes que nada. Só estou falando um monte de besteiras, pois falo sobre o que eu não sei dizer. Como os apaixonados fazem. Os apaixonados desprezados, claro. Os que sofrem por amor e acham que devem sempre falar sobre isso. Sobre suas más condições. De estarem prestes a morrer sabendo que não vão morrer.

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Minhas vísceras uivaram ao longe. Segurei a onda, olhando para o teto. Quem tem uma participação especial em minha vida somente por se deixar ser olhado. E teto é uma coisa que odeio olhar. (...) Já que não se encontra, em um teto, nada que valha a pena. Nem mesmo um lustre baccarat de 20 mil dólares salva um teto de sua opressora placidez, sequer o eleva além de sua única e torpe qualidade: rebater pensamentos merdas. (...) É, Helena conseguiu fazer de mim uma chata. Helena e seus tetos. Coberta por eles, e só por eles, virei um deles. E foi assim, me sentindo um gesso rebaixado, que acordei naquela manhã. Pondo-me a medir palavras para convencer uma Helena de que eu não era uma dessas lésbicas latentes que espera só uma oportunidade para sair enfiando sua língua por aí. Sábado, o dia amanhecendo, e eu numa conversa franca com um teto magoadíssimo.

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Cristiana diria: estou apaixonada por você. E o que Helena quis dizer - algo que Cristiana acha que entendeu, mas não - é: eu não sei o que faço afetivamente; porque, afetivamente, eu sou uma ameba; e vou fazê-la sofrer por causa disso.

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- Desculpa.
- Não é uma questão de desculpar ou não desculpar.
- Não dá mais pra agüentar as coisas do jeito que estão. Não dá.
- Eu já pedi desculpas. O que quer que eu faça? Que eu me mate?

Ele vai demorar para responder, homens não sabem como agir quando as mulheres falam em se matar. Seria até desleal se antes não fosse a trágica realidade - mulheres cogitam se matar o tempo todo.

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O que se diz numa hora dessas? Quais palavras vão conseguir escapar a essa areia movediça? Existe ainda algo a ser dito quando amar vira de novo puro verbo? A quantas conversas francas resiste um relacionamento?

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- (...) Você despirocou.
- Despiroquei?
- Despirocou.
- Despirocar é o quê? Não ter mais contatos com pirocas?
- Tsk...
- O quê?
- Eu odeio você quando faz isso.
- É? E eu odeio você quando você come com colher ou tira casca de pipoca com o dedo do foda-se.
- Cristiana...
- Eu não sei o que é despirocar. Você me explica?
- Você não sabe o que é despirocar?
- Não.
- Ou você está sendo irônica, e eu acho que essa não é a hora, ou você está sendo sonsa, e isso não é do seu feitio, ou eu acabo de descobrir que você é burra.
- Eu sou burra. Eu não sei o que é despirocar.
- Você pirou, enlouqueceu, você se descontrolou. Entendeu agora?
- Agora entendi.

A desvantagem de usar a ironia é que não dá para recuar imediatamente, mesmo você percebendo que foi um erro. Você tem que ficar pelo menos mais uns dois minutos mantendo o tom irônico. A vantagem é que é uma das poucas opções que você tem para se mostrar seguro diante de uma confrontação.

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Mulher é assim, você não sabe nada porque é freudiano demais, e Freud não entendia picas de mulher. As mulheres têm um negócio chamado "melhor amiga" que é quase como um casamento. É tão parecido com um casamento que não tem sexo. Melhores amigas vivem grudadas. Melhores amigas ficam nuas uma na frente da outra, e nenhuma das duas fica olhando pra xoxota da outra, pensando "hum, que xoxotinha deliciosa, preciso comer". Isso é fantasia dos homens. Melhores amigas se beijam, se abraçam, sem que isso signifique nada além de afeto, amizade.

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- Eu quero, no mínimo, um compromisso de sua parte. Uma garantia. De que você vai tentar trabalhar essa questão.

(...) Homens adoram dizer isso. Imagino que eles achem que só a menção do verbo trabalhar já é suficiente para abalar as estruturas das mulheres. E tem também essa coisa da "questão", da "grande questão", essa coisa de filósofo alemão, que é para deixar claro que eles, homens, estão preocupados em saber qual o problema e resolver logo. Enquanto nós, mulheres, somos umas malucas, que embolam os pensamentos e confundem tudo. Claro, há um tiquinho de verdade nisso, talvez mais até que um tiquinho, mas essa não é a questão. A questão é que eles usam a nossa instabilidade natural para nos diminuir, mas é essa instabilidade que faz essa merda de mundo andar pra frente. Se não fossem as malucas das mulheres, a humanidade estaria reduzida a um bando de trogloditas preguiçoso discutindo futebol o dia inteiro.

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Estar apaixonado estimula a sensação de que somos geniais.

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(...) Somos uns macacos que sabem rir. Só não subimos nas árvores porque achamos ridículo. Nossas bananas vêm carameladas ou flambadas em licor. Somos, todos, esses seres primitivos, que preferem um buraco de carne a um amor profundo. Que tratam amor como um carinho na cabeça. Que não sabem como agir porque não foram adestrados.

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Como diria Nabokov, é foda ficar tentando explicar o que já é sabido.

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Eu sou mulher. E sou homem.

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Já pedi todas as desculpas que a minha culpa agüentaria. E o que tenho de dor na garganta, que me faz ficar sem voz, é o medo de que o meu amor, sendo dito, pareça, de novo, tantas vezes, mais uma vez, mentiroso.

 

 

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